Nova sobretaxa canadense atinge motocicletas americanas com mais de 800 cm³ e coloca concessionárias diante de um problema que vai além do preço: estoque, margem e demanda podem ser afetados.

A Harley-Davidson entrou novamente no centro da disputa comercial entre Estados Unidos e Canadá. Desde 8 de setembro, motocicletas de origem americana equipadas com motores a combustão acima de 800 cm³ passaram a sofrer uma tarifa de 50% para entrar no mercado canadense. A medida atinge boa parte da linha da marca e já provoca preocupação entre concessionários.
O caso mais concreto vem da Prairie Harley-Davidson, concessionária localizada em Saskatchewan. O coproprietário Robb Hertzog afirmou que praticamente todos os produtos que chegam à loja vêm dos Estados Unidos e que não existe, no mercado canadense, uma alternativa simples para substituir esse fornecimento.
A consequência mais imediata pode aparecer no preço final.
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Tarifa de 50% não significa aumento automático de 50%
Esse é um ponto importante da nova medida. A sobretaxa é calculada sobre o valor aduaneiro da motocicleta, mas o custo adicional pode ser distribuído entre fabricante, distribuidor e concessionária.
Por isso, uma Harley-Davidson não necessariamente ficará 50% mais cara para o consumidor. O valor efetivamente repassado dependerá das decisões comerciais tomadas ao longo da cadeia.
Ainda assim, Hertzog calcula que o efeito poderia fazer algumas motocicletas praticamente dobrarem de preço. Em entrevista à imprensa canadense, o empresário citou como exemplo uma moto que custaria cerca de US$ 20 mil e poderia chegar a aproximadamente US$ 40 mil após os encargos. Trata-se, porém, de uma projeção do concessionário, e não de um novo preço oficial da Harley-Davidson.
Harley já vende menos no Canadá
O problema surge em um mercado que já apresentou queda nas vendas da marca.

A Harley-Davidson comercializou 6.434 motocicletas novas no Canadá em 2025, contra 7.093 em 2024. No primeiro semestre de 2026, foram 3.735 unidades, ante 3.912 no mesmo período do ano anterior.
O Canadá representou aproximadamente 4,9% das vendas globais da Harley-Davidson em 2025, quando a fabricante registrou 132.535 motocicletas vendidas no mundo.
Isso significa que o mercado canadense não é o principal destino da marca, mas ainda representa milhares de motocicletas por ano e uma rede de concessionárias que depende da disponibilidade de produtos competitivos.
Medida atinge principalmente as motos grandes
A regra canadense é direcionada às motocicletas de origem americana com motor a combustão superior a 800 cm³. O código tarifário 8711.50.00 passou a ter uma sobretaxa de 50% a partir de 8 de setembro.

Na prática, isso coloca grande parte das Harley-Davidson de maior cilindrada dentro da área afetada. A mesma regra também alcança boa parte da linha da Indian Motorcycle.
A associação Moto Canada alertou que a medida pode trazer consequências para concessionárias, distribuidores, trabalhadores e consumidores, especialmente porque a rede canadense reúne cerca de 900 concessionárias e representa mais de 88 mil empregos no setor.
A origem da disputa está na guerra comercial
A tarifa canadense é uma retaliação às medidas adotadas pelos Estados Unidos contra produtos canadenses. Em julho, o governo americano anunciou tarifas adicionais de 50% sobre determinados produtos do Canadá, com medidas entrando em vigor em agosto. O governo canadense respondeu com novas sobretaxas equivalentes sobre produtos americanos a partir de 8 de setembro.
Para a Harley-Davidson, o problema agora não está apenas na tarifa em si. O desafio é decidir quanto desse custo será absorvido pela cadeia e quanto chegará ao comprador.
Se a maior parte for repassada, o preço pode reduzir ainda mais o número de consumidores capazes de comprar uma moto nova. Se fabricantes e concessionárias absorverem parte da cobrança, o impacto poderá aparecer principalmente nas margens de lucro.
Por enquanto, o cenário mais concreto é de incerteza. A tarifa já está em vigor, as vendas canadenses da Harley vêm de um período de retração e concessionários precisam decidir como manter estoque e preços diante de um custo de importação muito maior.



